sexta-feira, 3 de julho de 2015

Meanwhile in Portugal

Transmite-se em directo a trasladação do Eusébio para o Panteão. Em directo. Um carro a andar por Lisboa a levar um caixão do sítio A ao sítio B. Em directo. Estou em loop, devo ter ficado estúpida, queimado algum neurónio, enquanto via um carro a andar por Lisboa a levar um caixão do sítio A ao sítio B. Em directo.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Os que perdem, os que partem.

No outro dia vi um documentário sobre a história do Buddha. Um principe, perde a mãe com uma semana de vida e o pai decide cercá-lo de todos os confortos materiais possíveis, na esperança que assim ele nunca se interesse com a vida para lá das paredes do palácio. Um dia o jovem principe sai e percebe: as pessoas passam dificuldades, as pessoas adoecem, as pessoas morrem. Estamos condenados a uma vida de sofrimento e não há como escapar, conclui ele. Agora multipliquem isto ao infinito: o homem acreditava na reencarnação. Não havia suicídio que o auxiliasse. Queria uma resposta, e não era fácil: isto tinha que fazer sentido e tinha que haver maneira de escapar disto. E em busca da resposta ele deixa tudo para trás: deixa a mulher, o filho, o pai, o palácio e toda a riqueza, e parte.

Dei-me conta, percebo pouco de sofrimento. Nunca fui muito próxima da doença ou do sofrimento físico. Não tenho medo de morrer. Entendo melhor o sofrimento psíquico, mas ainda assim acho que a palavra sofrimento não lhe encaixa muito bem. O sofrimento não é uma palavra com que me vista. Percebi então que me encaixa melhor a palavra perda. A ausência. A partida do outro. As despedidas. Ou a falta delas. Entendo melhor o sofrimento daquelas três pessoas que ficaram para trás quando um principe decidiu partir. Esse é o único tipo de sofrimento que eu entendo. E também não tenho ainda uma resposta.

Neste momento três amigas diferentes, com idades diferentes e por motivos diferentes estão em vias de perder a mãe. Uma diz: se ao menos não fosse tão nova. A outra diz: se ao menos não fosse numa cama de hospital. A outra: se ao menos estivesse consciente. E eu digo: se ao menos nunca tivéssemos que ver ninguém partir.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

E o Nash é que era o esquizofrénico

John Nash, o matemático cuja história originou o filme "Uma Mente Brilhante" faleceu vítima de um acidente de viação na sexta-feira. Acabei de ler que deve ter sido porque o Mercúrio está retrógado. (e que também é por isso que o Figo desistiu da Fifa)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Bullies são as outras


Criaram uma página de facebook para despejar mensagens de ódio em relação a uma das miúdas agressoras. Os comentários iam desde "vamos dar-lhe muita porrada" até a uma mulher que dizia "se a violassem ficava o assunto resolvido". 


Concluo: 1. as pessoas só têm merda na cabeça. 2. O bullying não vive só na Figueira da Foz nem cresce só na adolescência.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Antes dos blogues


Um projecto interessante:
"O Arquivo dos Diários é uma associação sem fins lucrativos e dedica-se à preservação de memórias autobiográficas fixadas em diários, cartas ou em qualquer outro suporte que permita reconhecer as histórias de vida de homens e mulheres."

Foi uma tarde muito produtiva

Não contente com em ver Private Practice em que choravam todos a morte de não sei quem, mais a Anatomia de Grey onde vi o episódio em que morre um dos personagens principais, ainda revi Lendas de Paixão e de seguida, o filme que adiava ver há anos, o Blue Valentine. Sobrevivi.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Oh tempo volta para trás

Tirei a tarde para estudar. Saio do emprego, sem almocar e vou para casa. O comboio fica parado em entrecampos mil anos porque as portas não abrem e portanto ninguém sai, ninguém entra e não vamos a lado nenhum. Dois adolescentes riam-se às gargalhadas com a insistência de quem de dentro tentava impacientemente sair e por quem de fora e sem perceber o que se estava a passar, insistia em tentar abrir a porta. Eu respirava fundo e tentava ler as mil e quinhentas coisas que tenho para estudar enquanto pensava na puta de sorte de ter que apanhar a porra do comboio com portas avariadas. E fiquei a pensar onde é que deixei de ser a adolescente que se ri para passar a ser a adulto impaciente. Olha se calhar quando comecei a trabalhar.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Mobilidade urbana sustentável, esse conceito tão civilizado

E não há ciclovias que nos valham quando se permite que os trabalhadores da CP marquem uma greve de 5 dias sem que o tribunal atribua quaisquer serviços mínimos. Portanto ali estou eu a 25 km de Lisboa:
-  sem fazer qualquer ideia se vai sequer passar um comboio durante o dia e não tenho como saber porque não há serviços mínimos marcados;
- se passar, tanto pode ser um as 6h ou as 15h, não tenho como saber porque não há serviços mínimos marcados;
- e se conseguir chegar a Lisboa (como consegui hoje, que cheguei quase à hora de almoço) tenho que arranjar forma de voltar porque mais uma vez, não faço ideia se sequer passará algum comboio de volta para Sintra porque não há serviços mínimos marcados.

Moral da história: se vai morar para Sintra compre um carro.

sexta-feira, 27 de março de 2015

"Is there a murderer here? No. Yes, I am. I am a villain. Yet I lie. I am not." *

Um piloto que se despenha com um avião cheio de gente é como um médico que decide matar uma enfermaria inteira. Tem algo de contra-natura. Eu própria que nunca tive medo de voar (excepto na turquia mas porque aquela porra parecia uma lata com asas), fiquei em choque imaginando as mil e uma pessoas conhecidas que podiam estar naquele avião a caminho de um destino nada exótico e imaginando a minha viagem aos açores para este ano, mas de barco.

À parte do choque que a morte absurda nos causa, observo com alguma preocupação esta procura desenfreada de respostas: "Ah ele estava deprimido". E procuram-se agora cartas de suicídio, baixas psiquiátricas, sinais da anormalidade de uma pessoa com problemas. A depressão pode ser causadora de actos inesperados e desesperados, e o suicídio é como se sabe tantas vezes um acto agressivo para os próximos, mas ainda assim não é sinónimo de rebentar com um avião no meio dos Alpes.

Façamos como a aviação, procuremos o que correu mal e podemos fazer melhor e usemos isso para compreender melhor a vulnerabilidade** e complexidade humanas mas não para criar um fosso ainda maior entre os "normais" e a doença mental.

* de shakespeare e deste bonito artigo.
** ok duas pessoas no cockpit a partir de agora. mas meus queridos, se um se quiser matar, pode sempre dar uma marretada na cabeça do outro, certo?

a propósito: http://www.theguardian.com/world/2015/mar/28/germanwings-plane-crash-alps-depression-doctor?CMP=fb_gu

sexta-feira, 20 de março de 2015

Eclipses

Isto de não se poder olhar para o eclipse é como tentar ignorar o elefante na sala.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Entendidos de poesia chamados à recepção


Quero uma bíblia, mas de poesia. Namoro há algum tempo o Século de Ouro, mas entretanto na livraria dei de caras com uma nova Antologia da Poesia Portuguesa. Os preços são semelhantes. Alguém faz ideia qual seria melhor de investir? 


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A madonna também cai


Mas não parte o pescoço. Eu acho que já não me levantaria do chão.

Portugal está diferente

Tenho amigos desempregados há mais de três anos que procuram por todas as soluções para se irem aguentando, desde fazer rissóis a workshops. Vão a casa dos pais procurar por restinhos para fazerem sopa. Quando está frio vão para casa dos pais para se aquecerem.
Tenho amigos que partiram porque não havia aqui nada para eles.
Tenho um amigo que parte este mês porque não encontra trabalho.
Tenho amigos que partiram e gostariam de criar os filhos perto dos pais, mas continua a não haver aqui nada para eles.
Não há estatísticas que me convençam. Portugal está diferente sim, mas não me venham tentar convencer que é para melhor.