segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Holes that cannot be filled


"My generation is on the way out, and each death I have felt as an abruption, a tearing away of part of myself. There will be no one like us when we are gone, but then there is no one like anyone else, ever. When people die, they cannot be replaced. They leave holes that cannot be filled, for it is the fate — the genetic and neural fate — of every human being to be a unique individual, to find his own path, to live his own life, to die his own death. 

I cannot pretend I am without fear. But my predominant feeling is one of gratitude. I have loved and been loved; I have been given much and I have given something in return; I have read and traveled and thought and written. I have had an intercourse with the world, the special intercourse of writers and readers. Above all, I have been a sentient being, a thinking animal, on this beautiful planet, and that in itself has been an enormous privilege and adventure."

Oliver Sacks

(My Own Life, para o New York Times)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Gender Trouble


Who's who
by Studio Fludd


"Não basta sentir-se como mulher e uma operação para ser mulher" comentava alguém a um artigo do The Guardian, onde Zoe Dolan falava da sua experiência como mulher transgénero e da forma quase inevitável como terminavam os seus encontros com homens no momento em que lhes dizia que estava a fazer a transição: mal. No caso que relata, acabou mesmo com a pessoa numa postura muito agressiva. E no entanto, a maioria dos comentários eram dirigidos contra ela, porque ela o enganou, porque lhe mentiu quando no primeiro momento que estiveram juntos não lhe disse que era transgénero. Mas toda a gente fala de todos os factos dolorosos e embaraçosos do seu passado no primeiro encontro? Levam uma lista de qualidades, defeitos e carta de apresentação? Já estou a imaginar um documento plastificado, com a melhor fotografia, lista de alergias e doenças que podem passar para os possíveis futuros filhos.

Afinal o que faz de uma mulher, uma mulher? Uma vagina? Há mulheres que têm uma e não se sentem mulheres. E também há mulheres que têm uma, gostam de ser mulheres e ainda assim debatem-se ao longo da vida sobre o papel que como mulher devem ter, porque a referência que tiveram das mães já não lhes serve. Alguém decidiu encerrar o assunto com uma definição de um dicionário: uma mulher/fémea é o sexo que produz óvulos e tem prole. É assim tão fácil definir o que uma mulher é? E uma mulher com cancro que tenha que extrair os ovários, ou uma mulher que seja infértil, ou infâmia das infâmias, uma mulher que não queira ter filhos? Acredito, deve ser uma benção ver o mundo a preto e branco.

Conheço quem trabalhe de perto com pacientes transgénero e a realidade é dura. Nascem com um corpo com que nunca se identificam e até à transição contentam-se com relações homosexuais que quase sempre terminam no momento que em que fazem a transição. Se no caso de mulheres que mudam para homens o futuro é mais promissor, maioria arranjam companheiras que aceitam o seu passado, ao contrário é dramático. A um homem que faça transição para mulher espera-lhe quase inevitavelmente uma vida muito solitária. Sentindo-se como mulher e com o corpo de mulher que sempre quis, não há homem que consiga abstrair-se de ter nascido com um pénis, mesmo que já não esteja lá.

Pessoalmente, não sei como sentiria se me apaixonasse por um homem e depois soubesse que tinha sido mulher. Talvez não haja forma de o saber sem alguma vez passar por isso. Acho que todos temos direito ao nosso preconceito e a transexualidade e a androginia confrontam-nos com os limites do conhecido e é perfeitamente aceitável que cause desconforto. Chegar a um lugar onde não há referências é assustador. Mas eu encaro isso como uma limitação minha, da sociedade onde estou inserida e fui educada e não como um problema da pessoa transgénero. Se se sente mulher, tem corpo de mulher, não pode ser uma mulher porquê? Deverão os transgéneros usar um sinal na testa para nos fazer a todos sentir seguros com a nossa sexualidade sem termos medo de nos apaixonarmos livremente num bar, sem o susto de nos poder calhar na rifa um trans?

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Two worlds collided and they could never tear us apart

"My mother and father had a terrible marriage. They celebrated their wedding anniversary one year with their friends. Why did they celebrate? Maybe because they had lasted so many years without killing each other."

Marina Abramovic

The Wonder Years


The Wonder Years
by Louvado Seja Design

Quando era adolescente enviava cartas às embaixadas (via a morada na lista telefónica!) dos países pelos quais tinha mais curiosidade, pedia-lhes informações e eles enviavam-me folhetos e brochuras que eu namorava religiosamente durante anos. Além disso tive correspondentes no Brasil, no Japão, em Itália. Alguns tenho hoje em dia no facebook mas confesso, sem a mesma mística. A mística de conhecer o Mundo eu entendo-a bem, mas não tinha dinheiro. É um mal português, eu entendo.

Lembro-me da minha correspondente italiana (que hoje em dia trabalha em turismo) relatar as viagens que fazia com os pais a Paris, a Roma, a Londres e eu pensar a utopia de me imaginar com os meus pais numa capital europeia. Irmos jantar fora a Lisboa já era um luxo. Mais tarde na faculdade quis muito fazer Erasmus. Candidatei-me dois anos e não entrei, tentando ignorar o facto de que mesmo que entrasse não saberia como me ia safar num país estrangeiro com o dinheiro que recebia de bolsa. Desejei muito estudar e trabalhar fora, mas não tinha dinheiro e desejava igualmente muito a minha independência. Guardo uma certa mágoa por esse desencontro de oportunidades: quando tive dinheiro já não me apetecia ir conhecer o mundo, estava numa relação estável e queria apostar nela, não numa estadia no estrangeiro. Hoje em dia tento compensar isso viajando, mas não deixo de sentir que as circunstâncias são irrepetíveis. Quando volto de férias, apetece-me tirar férias para descansar das férias. Não é uma queixa, mas é a realidade. Este ano sentia-me tão cansada que optei por não viajar. O tempo era aquele.

O dinheiro vivo publicou um artigo sobre a tendência de parar durante um ano para ir viajar de mochila às costas. Algumas pessoas tinham viajado por um continente específico, outras por vários, outras tinham acabado por arranjar emprego durante a viagem, outros voltaram, alguns ainda não tinham trabalho. Uma pessoa teve a coragem de falar em valores: 17000€ por um pouco mais de um ano a viajar pelo continente asiático. Eu acho que é preciso coragem para se falar em valores porque rapidamente surgem comentários críticos em relação a quantas pessoas em Portugal não têm 17000€ para ir viajar como bem lhes apetece. Não deixa de ser verdade. Mas também é verdade que mesmo quem tem essas poupanças pode decidir comprar um carro novo, abater no empréstimo ou simplesmente guardá-las como segurança para o próximo imprevisto. Sendo que o imprevisto pode ser o desemprego.

Lembro-me de uma amiga que planeou durante algum tempo a sua ida para Londres. Nós trabalhávamos juntas, ela até gostava mais de lá trabalhar do que eu, mas mantinha uma grande curiosidade em trabalhar no estrangeiro. Foi algumas vezes a Londres fazer entrevistas, arranjou emprego e na véspera de ir de vez, estava em pânico. Apetecia-lhe desistir de tudo. Só pensava na loucura que estava a fazer, deixar tudo para trás. Mas foi e adorou e Londres é a sua segunda casa, senão mesmo a primeira. A dada altura, grande parte dos meus amigos próximos estavam em Londres a trabalhar. Maioria voltaram, compraram casa e tiveram filhos. Depois disso, outros com casa comprada e filhos começaram a sair para o estrangeiro, mas por motivos pouco aventureiros: não tinham outra opção. Foi por pura necessidade e falta de oportunidade profissionais aqui.

Conhecendo alguns casos de quem procurou estudar ou trabalhar no estrangeiro em todos encontro algumas semelhanças: é certo que todos tiveram coragem de mudar e de arriscar, às vezes deixando para trás algumas situações profissionais estáveis (que convenhamos, são mais fáceis de deixar quando se tem 25 anos do que quando se tem 35). Mas também todos tinham uma rede familiar e financeira à qual sabiam que podiam voltar. Nem que fosse voltar à casa dos pais. E eu gosto muito de viver na minha casa.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

God creates dinosaurs, God kills dinosaurs, God creates man, man kills God, man brings back dinosaurs.



Fomos ao Centro Ibérico de Recuperação do Lobo Ibérico. Há mais de 10 anos apadrinhei por pouco tempo uma loba e fiz-lhes uma visita rápida. Não vi lobo nenhum, mas ouvi-os uivar e é mesmo muito bonito. Desde aí tenho os seguido online e apoiei-os nas duas ultimas campanhas de crowdfunding para a aquisição do terreno onde estão.

Existem cerca de 300 lobos em Portugal. A maioria da população vive entre o Gerês e o Douro Internacional e vive razoavelmente, embora a espécie ainda se considere em perigo e por isso desde 1988 a lei protege-a, a espécie e o seu habitat, uma vez que pondo em risco uma, fica em risco a outra. Outra parte da população vive acima de Castelo Branco e está rodeada de auto-estradas, aquedutos, barragens, parques eólicos, fábricas, aldeias e vilas. Apesar da lei que protege os tais lobos e o tal habitat. Assim, rodeados de parafernália humana de todos os lados, a caça disponível ficou muito reduzida (outra vez a mesma história, que chatice, os bichos comem) e os lobos (que detestam estar próximos de pessoas) aproximam-se das vilas e caçam animais domesticados.

O centro acolhe cerca de 20 lobos. As alcateias que lá vivem já são de uma ou duas gerações à frente dos lobos que existiam quando lá fui a primeira vez. Alguns ninhadas são "permitidas", de forma a garantirem a manutenção do código genético, mas o objectivo do centro não é a reprodução porque o espaço que têm disponível para receber lobos para "recuperar" é limitado. Por isso e como no ano passado nasceram três lobos, vasectomizaram os lobos reprodutores. Em relação aos lobos que recebem, vêm de todo o lado. A guia contou-nos que tinham acabado de receber uma loba do Zoo de Lisboa que estava de quarentena. Sabiam que o Zoo tinha lobos? Ninguém sabe, porque não estão visíveis para visitas.

As alcateias no centro vão sendo organizadas conforme a dinâmica que os funcionários observam entre os lobos e organizadas segundo vários espaços separados por redes. Se um lobo começa a ser demasiado maltratado pela alcateia podem decidir colocá-lo noutro espaço. As alcateias observam-se pelas redes mas não têm contacto físico (pelo menos a maioria, mas fiquei com essa duvida). São territoriais por isso provavelmente o contacto seria agressivo. No entanto, quando uivam ouvem todas as alcateias, é um reconhecimento de vizinhos. A comida dada aos animais é os excedentes de carne de supermercados da zona que os oferecem ao centro. Os lobos sabem que são pessoas que os alimentam e por vezes aguardam junto às redes onde a comida é lançada, embora os funcionários o tentem fazer de zonas diferentes. Perguntámos porque não colocam espécies dentro do recinto que possam ser caçadas, como os lobos fariam no seu habitat natural. A guia respondeu-nos que não, porque eles defendem o bem-estar animal. Nunca iriam pôr um bicho num recinto pronto para ser comido por lobos em segundos. Quão hipócritas somos (incluo-me), não conseguimos ser responsáveis por pôr um veado dentro de um recinto com lobos, mas deixamos que uma vaca viva meia dúzia de meses em condições abjectas para que depois seja morta e esquartejada para ser dada de comer aos mesmos lobos. A ironia: ao lado, com um muro pelo meio (literalmente), a Tapada de Mafra. A Tapada tem veados, gamos, javalis, coelhos e afins, e como forma de controlar a população, permite caça em algumas épocas do ano. Adivinhem o que é que os lobos comem? Veados, gamos, javalis, coelhos e afins.

Concluo. Eu admiro, respeito e apoio todas as pessoas que dedicam o seu tempo a isto: tentar reparar os danos causados à Natureza pelo Homem. E eu entendo que é tudo muito complexo, e eu entendo a sensibilidade e eu entendo a enorme responsabilidade que têm nas suas mãos, mas também acho isto: nunca tivemos muito jeito para fazer de Deus e fazemo-lo demasiadas vezes. Mesmo quando tentamos corrigir o que está errado.

Vem que o amor não é o tempo

Entrei de férias. Ouvi Mafalda Veiga num concerto e não adormeci. E bebi muita ginga em copos de chocolate (será que foi por isso?). Fomos conhecer Vila Velha de Rodão. Explicaram-nos: os pássaros que ali vivem estão protegidos (grifos e águias) mas a água onde já quase não há o peixe que eles comem está completamente poluída (pelas fábricas de papel). Aparentemente fica-lhes mais barato pagar as multas do que alterar o sistema de esgotos. Encontrámos um cão bebé abandonado. Estivemos com ele durante 3 dias e deixámos num abrigo antes que já não conseguíssemos mais viver sem ele e acrescentássemos mais uma dose de loucura à nossa vida diária. Voltámos. Dormir, comer, praia, dormir. Decidimos passar um dia na piscina. Estava tanto nevoeiro que nem se via a p*** da praia e praguejei sobre aquela praia e todas as outras da serra de sintra para a próxima década. Fomos ver o palácio e o convento de Mafra. Nhé. O mais espectacular estava fechado para visitantes (a biblioteca) onde tinham à entrada um morcego morto numa vitrine (mórbido) e sem explicarem sequer qual é a ligação entre os morcegos e a biblioteca (eu sei, mas e quem não sabe?) e de resto acumulam-se móveis, quadros e cenas várias em vitrines de uma maneira parva com legendas que não explicam coisa nenhuma, devem pensar que percebemos todos de História e gostamos de ver palácios porque não temos nada melhor para fazer. Fomos ao cinema ver um filme sobre um rapaz que se apaixona por uma luso-descendente e a única pessoa que sabia realmente falar português no filme era o Joaquim de Almeida. O filme: teve momentos muito, muito maus e momentos mesmo muito bons. E uma família portuguesa caracterizada de uma maneira completamente irreal, como costumam ser as generalizações. Fomos ver os lobos ao centro ibérico. Saí de lá meio nhé, tenho que pensar melhor nisso. Hoje voltei de férias. Quando cheguei estavam a pôr a meia haste a bandeira que nunca lá está, excepto quando alguém morre. Ontem, uma colega escorregou no Pulo do Lobo e morreu ali. Fdx, a morte é sempre estúpida, mas às vezes excede-se. Hoje: "É bom estar de volta! Pelo menos estamos de volta, certo?". Got it.


(na minha cabeça toca em non-stop a canção de engate do antónio variações. sei lá.)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

All my life I've been searching for something

"I'm taking a break from setting goals"
from Humans of New York

Durante um jantar de amigos iniciei conversa com a pessoa ao meu lado. Começámos por falar de filhos, trabalho, produtividade, emigrar ou não, e de repente a conversa foi parar à carreira. A carreira que ele estava a construir. Aquela carreira que só se constrói com muito esforço, com aquele esforço das 9h às 21h, com trabalho durante as férias (uma horinha ou duas, mas tem de ser, tem de ser!), mesmo que esteja menos tempo com o filho e com a mulher, porque é preciso esforço, é isso que precisamos, é esforço para sair da crise! E eu calei-me. A verdade é que tive vergonha de lhe dizer que mais facilmente dedicava todo aquele esforço a aprender a meditar ou a aprender a pintar a óleo do que a trabalhar para uma qualquer carreira, seja o que for que isso signifique, uma carreira.

Detesto a conversa da carreira. Não porque seja imune a ela. Porque também já estive tão cheia das mesmas ambições e porque todas me saíram furadas, a conversa incomoda-me. Neste momento não sei o que isso significa na minha vida. Não sei em que é que essas ambições se transformaram, mas a verdade é que se têm vindo a transformar noutra coisa qualquer. Trabalho 40h por semana numa coisa de que gosto, mas que seria muito feliz a fazê-la durante 20h semanais. Tenho ocupação para as outras 20h para o resto da vida. Interesses não me faltam, mas não me dão dinheiro, ou dão pouco. Não faço ideia como conseguir conciliar aquilo que gosto de fazer com aquilo que me dá dinheiro. Talvez não seja possível. Mas tenho a certeza de que não é a carreira que me vai fazer feliz. Será que seria mais feliz com aquelas 20h livres por semana? Nunca vou saber. Talvez essa seja a minha cenoura, enquanto para outros a cenoura é a carreira. Mas alguma vez a apanham?

Muitas das pessoas que conheço estão infelizes porque ganham mal e trabalham muito. E eu compreendo. Outros estão infelizes porque estão desempregados e tentam esticar o dinheiro com o milagre da multiplicação. Eu compreendo também. Mas também conheço pessoas que estão muito bem, têm trabalho, são bem remunerados, gostam do que fazem, têm dinheiro suficiente para comprar uma casa nova, para viajar, para viver perto dos filhos e estar presentes na vida familiar, mas continuam a não estar satisfeitos. Querem outro emprego. Querem ir viver para fora de Portugal. Querem ganhar mais. Querem...o quê? 

Do que é que andamos todos à procura afinal?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Argh-arve

Hoje em dia é difícil não tropeçar em alguém que esteja em pulgas para se ir enfiar no Algarve e levar lá uma, duas, três semanas. Mas as vossas férias não são para descansar?

Vejamos:
— alojamento caro;
— praias apinhadas de gente (é uma luta para encontrar um cantinho para pôr a toalha);
— parque de estacionamento da praia apinhado, assim como todos os parques em todos os sítios para onde se queira ir, o que faz com que cada deslocação de carro tenha o bónus de se levar mil anos à procura de estacionamento;
— compras idem, é preciso ir com paciência para esperar na fila;
— restaurantes caros, sobretudo caros demais para o que servem e conforme o local, temos mais sorte com o atendimento se hablarmos espanhol do que se formos portugueses;
— há algumas boas exceções, mas maioria dos sítios para sair à noite estão feitos para os ingleses e inglesas beberem, entre eles pubs e discotecas com má música;

Posto isto, não percebo a loucura com férias no sul. Passei mais de 15 anos a ir de férias para o Algarve para casa de familiares. Estava farta ao fim de três dias. Até o gelado ao fim do dia era como uma ida ao Colombo na véspera de Natal. Acho que o Algarve também não gosta de mim porque o ano passado tentei uma reaproximação e a água estava gelada. Expliquem-me.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Só o sonho fica, só ele pode ficar.

Ela mostrava-nos o seu álbum de fotografias:
Olha eu no meu aniversário com 3 anos, aqui eu e a minha mãe (olha tens o nariz dela! sim, pois tenho!), eu e o meu pai a passear (também sou parecida com ele não sou? és sim. menos o nariz, o nariz é da minha mãe!), aqui eu e a minha prima, eu e o meu primo no baloiço (eras tão pequenina, eles devem ser tão crescidos agora!).

A mãe tão bonita e tão nova que vive a três estações de distância e não a vem visitar há anos, o pai que vive praticamente ao lado e nunca mais a veio ver sóbrio, os primos que nunca mais viu, o lar que nunca mais teve. E no entanto ali estava ela a mostrar-nos feliz todos aqueles bocadinhos.

Vai para uma família nova, uma família grande, com muitos filhos. Pela 3ª vez (nas anteriores as famílias desistiram dela a meio do processo de adopção). E ela estava feliz. Quem senão uma criança, para nunca deixar de acreditar que (ainda) tudo é possível?

Dizia-lhe "és tão corajosa, vais começar tudo de novo". Ela riu-se e disse-me "é a vida". Pois é.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Ainda nos estamos a conhecer

Comprámos uma Roomba. Ainda não me poupa muito tempo porque ando hipnotizada a persegui-la pela casa. Assim de repente, a primeira coisa que me ocorre é que para robot não é muito esperta, pensei que fosse mais eficiente. Leva quase o dobro do tempo a limpar o mesmo que uma pessoa. Mas pronto, uma pessoa vê logo à partida o que tem para aspirar enquanto ela anda às marretadas pelos móveis e pelas paredes a tentar calcular o espaço. Também é um pouquito esquecida, às vezes depois de aspirar duas divisões de seguida, volta à primeira. Mas afinal aspira tapetes. Desde que não sejam demasiado finos. Basicamente é preciso preparar minimamente a casa de manhã para que não chegue a casa com a Roomba engasgada num tapete ou nos brinquedos da gata (que não lhe acha piada nenhuma). Mas é possível programá-la para aspirar a uma hora diferente todos os dias e ela volta ao dock para carregar quando termina.

Não é perfeita, mas como aspirar é a tarefa que mais odeio fazer em casa, estou muito contente. A seguir preciso de uma Bimby, que andamos a comer sopa ao jantar há meses..

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Acceptable, respectable, presentable, a vegetable.

"Tinha lido em Plutarco uma lenda de navegadores relativa a uma ilha situada nestas paragens vizinhas do mar Tenebroso, e para onde os Olímpicos vitoriosos teriam, há séculos, repelido os Titãs vencidos. Esses grandes cativos da rocha e da vaga, para sempre flagelados por um oceano sem sono, incapazes de dormir, mas incessantemente ocupados a sonhar, continuariam a impor à ordem olímpica a sua violência, a sua angústia, o seu desejo perpetuamente crucificado. Reencontrava naquele mito colocado nos confins do mundo as teorias dos filósofos que havia feito minhas: durante a sua vida breve, cada homem tem sempre que escolher, entre a esperança infatigável e a sensata ausência de expectativa, entre as delícias do caos e as da estabilidade, entre o Titã e o Olímpico. A escolher entre eles, ou a pô-los, um dia, de acordo um com o outro."

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Lately

Depois de uma pausa nas séries tenho conseguido ver mais filmes. Nem sempre é fácil ver um até ao fim. Não é raro ter de o ver em três dias, mas não foi o caso de nenhum destes.

Um filme que esperava gostar e odiei:

Que amor tão mórbido, aliás, como chamar aquilo amor? Pareceu-me mais terror. A sério, ainda não recuperei, estou zangada com o filme.

Um filme que esperava odiar e gostei:

Como alguém apontou muito bem no IMDB, sofre do mesmo problema que a maioria dos filme sci-fi: 90% do filme é introdução. Mas eu adoro ser apresentada a estes cenários e viajar neles. O pior, é a história. Parece que enterram o investimento todo em efeitos especiais e porrada e esquecem-se do resto. Como em Prometheus, cheio de lacunas no enredo, algumas tão surreais que parecia que nunca ninguém tinha lido bem aquilo de uma ponta à outra, mas ainda assim eu fiquei apaixonada por aquelas personagens que pareciam estátuas gregas, achei de génio ir buscar aquela imagética para simbolizar o início da raça humana.

Um filme que me deixou assim-assim:

É lindo, com tantas imagens que gostaria de guardar, mas agridoce. Triste mas com tantas interpretações possíveis do final. No entanto, fiquei com a sensação de que a moral da história me passou ao lado.

Alguém tem sugestões para próximos? Não precisam de ser muito recentes.

Eu sou o rei dos matraquilhos, tenho prateleiras cheias de taças


Se não fosse trágico, este gajo era uma comédia.